Para que serve a psicanálise?

 

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Freedom, do escultor Zenos Frudakis

 

    A ruptura com os valores tradicionais é uma marca do mundo contemporâneo. Todos nós vivenciamos isto e percebemos como esta ruptura incide também na construção das subjetividades de nossa época.

    Sabemos que as estruturas familiares mudaram, bem como as formas de exercer a maternidade e a paternidade. Não é diferente com o amor e o desejo, já que o sujeito contemporâneo descobriu que existem modos diversos de viver a sexualidade e de habitar um corpo. Que cada qual tenha de se haver com decisões antes impensáveis sobre sua existência, isto não é sem efeitos!

    Em nosso tempo, assistimos a um teatro um tanto contraditório: as identidades precisam ser construídas em meio a uma tendência à desconstrução. Perderam-se as referências de outrora e os caminhos para o laço social são pouco a pouco virtualizados. É o império das imagens, onde imperam FacebookInstagram, Snapchat, WhatsApp, a neurose da vida hipersaudável.

    Para a psicanálise, estes são alguns dos escapes frente ao esvaziamento do valor da palavra e ao “despedaçamento do corpo”, fenômenos próprios do mundo de hoje. Escapes que, por sua insuficiência, esgotam-se e esgotam os sujeitos, que sofrem. Sustentando-se na vida pela frágil via da imagem, escapa ao sujeito sua verdadeira questão, que é “Quem sou eu para o Outro?”. Como vemos, trata-se mais de dar espaço ao simbólico – que é o propriamente humano -, e menos ao imaginário.

    Por tudo isso, é cada vez maior a busca das pessoas por alguém que possa ajudá-las a encontrar alguma orientação que seja válida à sua singularidade para não naufragar num mar de infinitas possibilidades. Alguns procuram apoio na família, na religiosidade, no trabalho, com os amigos; outros consultam um médico, leem um livro, praticam atividades físicas, ou até mesmo vão a um psicanalista se nada disso funciona.

    E muitas são as dúvidas de quem pensa em começar a fazer uma terapia. Questionamentos muito recorrentes são justamente sobre “Para que serve?”, “Quais são os ganhos neste processo?” ou “Qual direção toma o tratamento e a cura?”.

 

Então, como saber quando começar? E afinal, para que serve a psicanálise?

   

     Aqui, podemos pegar emprestada da psiquiatria uma importante noção chamada homeostase. Do grego, hómoios + stásis, significa a habilidade de um organismo de manter um ambiente interno constante, num equilíbrio de condições¹. Seguindo a lógica adotada pela medicina e tomando o ambiente interno como o psiquismo, a “homeostase psíquica” estaria ligada à capacidade de um sujeito, diante de estímulos internos e externos, manter-se equilibrado ou estável. Ou ainda, conseguir preservar-se o melhor possível do sofrimento, não se extraviar com a angústia que sente.

    Assim, se enfrentamos um sofrimento excessivo e prejudicial, cujo sinal pode ser desde uma ansiedade até uma angústia ou um mal-estar desmedido, é hora de procurar ajuda. Estes sinais podem ser causados por situações como perdas, frustrações, problemas que se repetem, dúvidas, pensamentos, medos, histórias de vida difíceis, conflitos familiares, traumas… Enfim, todo gênero de dificuldades que aparecem na vida e com as quais não lidamos de boa maneira, mas que sempre acabam deixando vestígios.

    Nossos afetos e nosso corpo vão nos dando indícios de que os arranjos que fazemos na vida – aquelas respostas que costumamos dar frente às contingências – não funcionam mais como soluções. Como se o sistema começasse a entrar em colapso. Por exemplo: alguém que num ambiente de excessivas responsabilidades e cobranças sofre de uma ansiedade incontrolável e costuma isolar-se, mas em algum momento percebe que este recurso ao isolamento não aplaca mais sua ansiedade. O que fazer? Começa a haver aí um desarranjo.

    Um outro jeito de dizer é que para cada um existe uma medida para saber quando é necessário procurar ajuda: esta medida é o insuportável. Quando percebemos que poderia estar melhor, que há algo que não conseguimos ver, que não conseguimos ouvir, que não conseguimos digerir, que não conseguimos compreender; e quando tudo isso se transforma num sentimento de impotência, num “Assim não dá mais”, é preciso buscar outros recursos para atravessar o caos e se reorganizar.

    Justamente, a psicanálise parte do princípio de que toda neurose é uma construção. Tomando as palavras de Enric Berenguer, é “um sistema de crenças, sentidos, palavras, que também têm repercussões no corpo e no modo de senti-lo, vivê-lo. Freud disse alguma vez que a neurose é a religião particular de cada um. Ou seja, como toda religião, uma montagem, algo montado a base de peças e que funciona”².

     Para a psicanálise, esta construção que cada um faz à sua maneira  nada mais é do que um esforço do sujeito por articular algo, circunscrever uma dificuldade fundamental que concerne ao seu ser. Todavia, sozinhos nós apenas continuamos presos num labirinto do qual não sabemos como sair. O nosso labirinto. Freud deu a isso um nome especial: realidade psíquica.

     O que toda uma série de fenômenos clínicos demonstram é que quando o marco da realidade se rompe, tanto os limites do corpo como a percepção do tempo e do espaço deixam de ser referentes válidos para o sujeito. Este é o ponto onde tal organização das peças deixa de funcionar e que toca na questão do sintoma, na medida em que o sintoma pode ser entendido como um “Isso funciona assim”.

     Pode parecer um pouco estranho, mas a palavra sintoma cabe aqui. Você já deve ter ouvido falar das doenças psicossomáticas. Elas são a prova de que nosso psiquismo interfere no funcionamento do nosso corpo e que os sintomas também podem ter causas psíquicas. O que acontece é que os sintomas nem sempre se manifestam organicamente. Muitas vezes os sintomas se manifestam no nosso modo de fazer laços com as outras pessoas, por exemplo. Em outras palavras, nós podemos ter um modo de viver sintomático.

     Então, sim!, um psicanalista também trata sintomas. Porém, diferentemente do que é convencionado pela medicina tradicional, o tratamento se dá através do método da livre associação. Ao fim e ao cabo, a psicanálise serve para tratar de sintomas. É um outro remédio para o alívio dos sintomas. Quando eles se tornam fonte de insatisfação e sofrimento, sacrificando nossa felicidade. Quando não funciona mais viver de determinada maneira. Ou quando a doença passa a custar caro.

     Em suma, uma das principais funções da psicanálise é permitir ao sujeito historicizar. Ao contar sua história, pode se apropriar dela e tomar o papel de protagonista. A fala dirigida a alguém que ocupa o lugar de psicanalista permite, a partir da livre associação, produzir conexões, estruturas, ou seja, uma tecitura simbólica. Isto possibilita ao sujeito uma amarração na vida que passa por ir reconhecendo, ao passo em que cria, o lugar que deseja ocupar no mundo.

¹ Disponível em: https://michaelis.uol.com.br/moderno-portugues/busca/portugues-brasileiro/homeostase/
² BERENGUER, E. (2018). ¿Cómo se construye un caso?: seminario teórico y clínico. Barcelona: Nuevos Emprendimientos Editoriales.

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