Elucubrações sobre o amor e a morte


* Trabalho apresentado na Jornada do Curso de Psicanálise da Orientação Lacaniana, na Escola Brasileira de Psicanálise – Seção Santa Catarina, em 08 de dezembro de 2018.


 

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Arte de Alexandra Levasseur

Pequeno fragmento de real

    Era ainda uma menininha quando vivi meu primeiro encontro com o real. Aos cinco anos, de castigo em casa e tomada de uma pulsão indomesticável, eu me insurgia jogando pedras na igreja e nos carros que passavam pela rua. Pendurada no portão, de repente dou um passo em falso, tropeço e sou perfurada por uma ponta de lança. Um acontecimento que me deixaria cicatrizes indeléveis.

    A mais importante delas vem da fala de meu pai, que após me levar para ser costurada, disse-me: “Mais um pouco e teria atravessado o seu coração”. Esta advertência, somada à anestesia de um corpo ferido, mas que não doía, eu a tomei como uma sentença de quase-morte. Se a ponta de lança por pouco não atravessou meu coração, as palavras de meu pai, estas sim, atravessaram-no feito uma flechada.

 

El(o)ucubrações

    Do amor à morte, eis uma ficção demasiado humana. De Édipo e Antígona a Medeia e Hamlet, este enredo foi vastamente explorado no gênero trágico e na tragédia dos divãs. Enquanto clínica da civilização, também a psicanálise não poderia se furtar de ler na subjetividade de sua época os sintomas que gravitam em torno destes dois grandes astros. Em Freud, esta leitura já se ensaiava com seu liebeslebens, significante que articula amor e erotismo, que mais tarde será traduzido com o conceito de libido.

    Na linha discursiva que se traça de Psicologia das Massas a O mal-estar, dois textos em instigante dialogia, o diagnóstico freudiano da civilização é cético. À sua maneira, Freud pôde localizar o significante mestre como suporte do laço social – o que chamou de “o poder de Eros”. Ele diz: “o indivíduo renuncia ao seu ideal do Eu e o troca pelo ideal da massa corporificado no líder”¹, por amor, que esteja claro. No entanto, isto não o impediu de ir mais além, retificando os fracassos do significante mestre diante da irredutibilidade da pulsão de morte.

    Nada de “Ama teu próximo como a ti mesmo” ou de sentimento oceânico. Com a modernidade, estes artifícios foram perdendo sua consistência diante do abalo produzido pela difusão do discurso da ciência e do discurso capitalista na cultura. Com a queda do Nome-do-Pai, o que ascende ao zênite é o objeto a, fenômeno onde se inscreverá o acontecimento Freud. O pai não é mais o astro-rei e o real se apresenta sem lei. Em Anticristo, de Lars von Trier, o aviso vem da natureza: “Chaos reigns”, enuncia a raposa Ouroboros.

    Em suma, poderíamos dizer que é na junção entre paixão e patologia que reside o pathos que é o gozo. Aqui, acrescento: estamos falando de amor e morte, ainda, mas descendo do Panteão e às voltas com sua incidência nos meros mortais, campo onde a coisa ganha nuances viscerais. Digamos que a paixão, um dos nomes do amor, em seu caráter fulminante, flerta com a morte.

    O amor é, em essência, uma via de tratamento do gozo. É efeito da articulação deste gozo com o Outro do significante. “Só o amor permite ao gozo condescender ao desejo”², enunciou o Lacan d’O Seminário 10. Fazendo uso de um sensível aforismo de Miller³, talvez se chame desejo o resultado deste esforço de dar um nome próprio a a. Um resultado que, por consistir em dar o que não se tem, só poderia fazer deslizar metonimicamente.

    Em outras palavras, se o corpo vivo é a condição do gozo e o significante é causa do gozo, o significante mortifica pois incide sobre o gozo, que é o que há de vivo. Miller dirá que “esta morte que usurpa a vida é equivalente a um desaparecimento significante. É uma morte que é equivalente ao sujeito barrado, ao sujeito enquanto um significante a menos”4. Trata-se de um incidente causado pela incidência do significante no corpo.

    Quais seriam, então, os efeitos colaterais deste mal que nos acomete, o gozo? Irrupção de sintoma e angústia?! Também. Mas penso principalmente no corpo, o corpo atravessado pela castração. Ao passo que sofre os impactos do gozo e do significante, o corpo também acontece neste momento. Amarram-se real, simbólico e imaginário. Constitui-se o fantasma, que conjuga o vivo (a) e o morto ($).

    Isto faz do neurótico um zumbi do desejo, um walking dead. Justamente porque à disjunção fundamental entre pulsão e desejo, ele responde com a insatisfação do desejo, gozando da renúncia ao gozo. É o preço que paga para ganhar uma unidade imaginária que ordenará o caos do organismo. Este corpo do estádio do espelho, que fala da castração imaginária, é o registro onde o sujeito crê em sua falta-a-ser significante.

    Há Um, o Um do gozo. A este respeito, cabe a pergunta de Lacan: “Que acontece com o sujeito absoluto do gozo em relação ao sujeito gerado a partir desse 1 que o marca, ponto de origem da identificação?”5. É o próprio Lacan que dirá que nesse jogo o sujeito aposta sua vida e, por que não dizer um pouco mais?, dá seu coração a este Outro que concedeu um significante para nomear seu ser. Lembremos que o neurótico é aquele que imagina que o Outro demanda sua castração. Como belamente ilustrado por Ingmar Bergman, a coisa toda se passa numa espécie de xadrez com a morte. Os cineastas também sabem mais, e antes.

    Assim, a questão do masoquismo vai ganhando relevo. Desde Freud já se apontava no gozo masoquista uma problemática ligada à economia libidinal. Parafraseando Lacan, o gozo masoquista é um gozo analógico, onde o sujeito assume analogicamente a posição de perda representada pelo a no nível do mais-de-gozar6. Mais precisamente, o sujeito aproxima-se do gozo pelo caminho do mais-de-gozar, enredando-se num drama de repetição que tende ao infinito, além do princípio do prazer.

    Este é o circuito do supereu, que mostra a equivalência entre vontade moral e vontade de gozo – ou entre Kant e Sade -, um funcionamento que se mantém palpitante no coração da cultura. Consoante Lacan, o mais-de-gozar é aquilo que corresponde não ao gozo, mas à perda do gozo. O que nos mostra que a renúncia ao gozo não é mais do que o imperativo que se nutre do gozo da renúncia.

    Contudo, a época do significante mestre, cuja vocação era a de introduzir um princípio de limitação e de coesão, parece ultrapassada. A clínica hoje é testemunha de como os mecanismos de regulação simbólica são impotentes frente à desordem no real. Há uma crise que afeta a representação significante do sujeito pós-moderno que, desarrimado do S1, sofre de um profundo desregramento de sua relação com o gozo e a lei. O real em nosso tempo se impõe cortante e nos põe a interrogar sobre a miríade de sintomas que a partir daí se produzem: os fenômenos psicossomáticos, as fibromialgias, as sexualidades, as solidões, as famílias, os cientificismos, a bioética, a biotecnologia, os Messias…

    À “crise” do imaginário, que é a deste Outro faltante que cederia seus “direitos de imagem”, i(a), ao enfant e que o sustentaria na via do mais-de-gozo, Lacan responde inventando o real. Quando se perde este Outro que “emprestava sua imagem para enfeitar a janela”, o enquadre cai e o sujeito e seu regime de gozo entram em colapso. O gozo se desarvora e aparece em sua verdadeira face, que é a de gozo Outro. Abre-se no horizonte a possibilidade de prescindir do pai com a condição de saber servir-se dele.

Notas

ˡ FREUD, S. (2011[1920-1923]). “Psicologia das massas e análise do eu”. In: Psicologia das massas e análise do eu e outros textos / Sigmund Freud. São Paulo: Companhia das Letras, p. 93.

² LACAN, J. (2005[1962-1963]). “Aforismos sobre o amor”. In: O seminário, livro 10: a angústia. Rio de Janeiro: Zahar, p. 197.

³ MILLER, J-A. (2010). “O amor entre repetição e invenção”. In: Opção Lacaniana Online, nova série, ano 1, p. 16. Disponível em: < http://www.opcaolacaniana.com.br/pdf/numero_2/O_amor_entre_repeticao_e_invencao.pdf >. Recuperado em 12/06/2018.

*“Amor é o esforço para dar um nome próprio a a.”

4 MILLER, J-A. (2004). “Biologia lacaniana e acontecimentos de corpo”. In: Opção Lacaniana – Revista Brasileira Internacional de Psicanálise. São Paulo: Eolia, no 41, p. 24.

5 LACAN, J. (2008[1968-1969]). O seminário, livro 16: de um outro ao outro. Rio de Janeiro: Zahar, p. 138.

6 LACAN, J. (2008[1968-1969]). O seminário, livro 16: de um outro ao outro. Rio de Janeiro: Zahar, p. 132.

 

Referências bibliográficas

LACAN, J. (2008[1968-1969]). O seminário, livro 16: de um outro ao outro. Rio de Janeiro:
Zahar.

MACHADO, O; RIBEIRO, V. (org.). (2014). Um real para o século XXI. Belo Horizonte: Scriptum.

MILLER, J-A. (2004). “Biologia lacaniana e acontecimentos de corpo”. In: Opção Lacaniana – Revista Brasileira Internacional de Psicanálise. São Paulo: Eolia, no 41, p. 7-67.

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