“Tomar a palavra ou tomar a pílula?” – A psicanálise e a questão da medicação

lesvoyageurs.jpg
Les Voyageurs, de Bruno Catalano

     A palavra clínica vem do grego, klinikê, que significa “prática à beira do leito”. Klinikosverbete de onde se derivou o termo, refere-se ao próprio leito no qual o doente se deita – pensemos nos hospitais, historicamente um dos maiores modelos de cuidado em saúde.

     A clínica enquanto prática nasceu da tentativa de descrever, sistematizar e classificar os quadros clínicos das doenças. Assim, ela se tornou um método de conhecimento científico das enfermidades e de como melhor tratá-las. A medicina, a psiquiatria e a psicanálise, por exemplo, são áreas do conhecimento baseadas na clínica, são “filhas” da clínica.

     Contudo, apesar de estarem vinculadas historicamente, existem discordâncias epistemológicas entre estas três modalidades de clínica. As premissas das quais partiram, bem como as conclusões a que chegaram fizeram delas teorias distintas. À diferença da clínica médica, a psiquiatria e a psicanálise compartilham do mesmo objeto de estudo, que é o sofrimento psíquico

     Segundo Michel Foucault, um importante filósofo que pensava numa história crítica da modernidade, Pinel foi o marco do nascimento da psiquiatria no século XVIII. E a psicanálise engatinhava já no final do século XIX com Sigmund Freud, cujo trabalho veio a abalar paradigmas. Freud foi inegavelmente um clínico genial.

     Entre a psiquiatria e a psicanálise, é preciso dizer, a relação não foi totalmente harmônica. Muitas vezes na história da ciência vemos um campo de saber se opor a outro para conseguir sustentar sua legitimidade na comunidade. Não foi diferente para as duas “irmãs”¹: na opinião de Freud, a psiquiatria privilegiava o olhar de quem escutava, ou seja, o diagnóstico e o prognóstico do médico, por exemplo; enquanto que do ponto de vista da psicanálise, era o olhar do paciente que interessava.

     Podemos dizer, então, que o paradigma abalado pela psicanálise foi o do saber centralizado na figura do médico. Alonso-Fernández² chega a dizer que a importância das contribuições de Freud no modo de conceber o fazer clínico reside em ter transformado a história de uma enfermidade na história de um doente.

     Dar a palavra aos pacientes permitiu que emergisse algo totalmente novo que não havia antes da psicanálise. Quando eles contavam suas histórias, começavam a surgir novas articulações, novos modos de encarar algo insuportável, insights, questionamentos. Freud percebeu que as mudanças passavam pela fala, pela possibilidade de quem estava sofrendo tomar a palavra. São os chamados efeitos terapêuticos que uma análise proporciona.

 

     Aqui, entramos no que parece ser uma outra espécie de disjunção: “tomar a palavra ou tomar a pílula?”, podemos nos perguntar.

 

     Para a psicanálise, esta é uma pergunta ética. Ela coloca em evidência um ponto chave de sua orientação – que é um afeto -, na medida em que ele perpassa a trajetória terapêutica daqueles que se aventuram numa análise e também a experiência de cada um de nós enquanto seres falantes: trata-se da angústia. Pois a psicanálise é um tratamento para o mal-estar na civilização. Por meio de seu dispositivo, ela dá lugar aos sintomals de cada um. Partindo do singular, do infinito particular que há em cada um de nós, a psicanálise aposta na potência transformadora de escutar os sujeitos que querem falar do que lhes afeta na vida.

     De certa maneira, com essa pergunta, estamos tangenciando a questão da cura. E uma das primeiras coisas que vem à cabeça quando tocamos nesse assunto é o remédio. É quase automático. Isto porque tanto a medicina quanto a especialidade psiquiátrica conquistaram grandes avanços no tratamento das doenças e consequentemente a confiança das pessoas – o que proporcionou que ocupassem uma posição de poder na nossa sociedade, fazendo com que sua principal forma de tratamento, via medicação, se difundisse.

     Um reflexo perigoso dessa difusão massiva é apontado por dados estatísticos que dizem que o consumo de medicamentos controlados no Brasil aumentou vertiginosamente, tal como seu uso abusivo. Alguns estudos demonstram que o mesmo vale para os psicofármacos, como a Ritalina, o Clonazepam, etc.

     É importante salientar que a psicanálise não se opõe à prescrição medicamentosa, pois entende que pode fazer do poder contingente do medicamento psiquátrico um auxiliar do seu tratamento. Na verdade, o que salta aos olhos é a expansão do uso abusivo e do uso sem indicação médica, que as estatísticas ajudam a caracterizar como um fenômeno social.

     Por que cada vez mais pessoas estariam procurando os medicamentos como recurso para tratar de suas dificuldades, mesmo quando não recomendado por um médico? E por que andam exagerando na dose?

     Uma explicação possível é que aparentemente no mundo contemporâneo produziu-se uma espécie de acoplamento entre algo que é da ordem do humano – as vezes, todos nós sentimos que falta alguma coisa – e os objetos de consumo que são oferecidos em larga escala na nossa sociedade. Hoje, tais objetos de consumo ocupam o lugar daquilo que viria a solucionar o problema da falta que sentimos. Um desses objetos de consumo podemos pensar que é o remédio. Dentro da lógica do sistema capitalista, as demandas criam as ofertas.

     No tocante à experiência psicanalítica, ela nos ensina que a medicação alivia o sintoma, sim!, mas não promove a cura verdadeira. Digamos que não corta o mal pela raiz. O remédio pode ajudar naqueles momentos em que a angústia ou o desânimo batem forte, para que se continue caminhando na vida. Mas para que um sujeito se lance na via do desejo, que é um percorrer esse caminho com fome de viver, é preciso um trabalho a mais, que é o trabalho que se faz numa análise.

     Nesse sentido, é possível uma parceria entre a psiquiatria e a psicanálise, tendo a medicação como ferramenta para que o sujeito possa bem-dizer de seu sofrimento e de sua história. Numa análise, inventam-se outras formas de estar na vida, faz-se um resgate do sentimento de vida, ainda que ele pareça estar perdido.

     Poderia-se dizer da psicanálise que é uma outra espécie de remédio pela via oral [da oralidade], na medida em que permite ao sujeito falar sobre seus sintomas, seu infinito particular; mas visando ir além: trata-se de saber o que estrutura tudo isso que leva ao sofrimento. Assim, o sujeito pode se retificar acerca de seu modo de vida e do que nela se repete para enfim mudar, fazer suas escolhas, apostar na vida!

¹ São irmãs enquanto filhas da clínica.
² ALONSO-FERNÁNDEZ, F. Fundamentos de la psiquiatria atual. 2. ed. Madrid: Editorial Paz Montalvo, 1972. t II: Psiquiatria clinica

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto:
search previous next tag category expand menu location phone mail time cart zoom edit close