A angústia, o real e o corpo

ㅤ ㅤㅤSim, ir às origens da psicanálise é revisitar páginas amareladas e puídas; mas também é folhear um saber em movimento e, portanto, vivaz. Algo do velho e secular não morre quando há o significante, todavia deixemos isto para depois – ainda não descobriram traças que comem significante. Para o nascimento da psicanálise, os sintomas histéricos interpretados por Freud são o apêndice de um corpo teórico que vai tomando forma.

ㅤ ㅤㅤEm síntese, o que estava em jogo, soube-se a posteriori, é que o sujeito histérico se endereça ao Outro, que toma como mestre, demandando que este produza um saber que lhe cure de seu mal, de seu modo de gozo. Trata-se do discurso do inconsciente por excelência. Por trás do véu, está que o gérmen do saber psicanalítico é produto do discurso histérico.

ㅤ ㅤㅤEm tempo: “O discurso do mestre não é o avesso da psicanálise, é o lugar em que se demonstra a torção própria, eu diria, do discurso da psicanálise”ˡ, é o cito de Lacan. Isto posto, não há como não pensar: que seria da psicanálise sem o declínio radical da função do mestre, referência do homem em relação ao real?

ㅤ ㅤㅤAo que parece, Freud é esta figura que se destaca de um enquadre e vem juntar os cacos da ruptura para com eles reinventar a vida frente ao mal-estar. Se assim for, o real já se entrevê em Freud, quiçá uma clínica que pretende um tratamento deste real luzindo pelas frestas.

ㅤ ㅤㅤÉ nesse rastro que, em seu retorno à Freud, Lacan propõe n’A direção do tratamento um princípio orientador crucial para o trabalho analítico – a retificação das relações do sujeito com o real². É preciso suspeitar do ímpeto cientificista que pulula em certos momentos da obra freudiana para perceber as pérolas que foram pinçadas. Uma dessas pérolas é a angústia, o outro nome do mal-estar.

ㅤ ㅤㅤEle chega a afirmar em seu escrito de 1894, onde intenta separar o fenômeno neurastênico da nosologia da neurose, que a angústia é o sintoma nuclear da neurose e que nesta estaria presente um quantum de angústia livre a ser enlaçada com uma representação. Em 1909, reedita esta teoria, trazendo como exemplo da interação entre angústia e representação o emblemático caso Hans, cuja fobia ilustra o trabalho psíquico envolvido na fixação entre o afeto e a representação – isto é, o significante.

ㅤ ㅤㅤDaí se depreende a fobia como modalidade de defesa do sujeito ante à angústia. Um proto-discurso que extrai da imensidão do que se pode ver um objeto fóbico. Assim, a representação inconciliável é eclipsada por uma representação substituta do significante a ser reprimido e, a angústia ganha um rosto. A partir daí, instaura-se a dinâmica própria da neurose: uma enrolação ora trágica, ora cômica com o Outro. É o discurso enquanto modo de filiação ao laço social que vai permitir uma organização menos solitária do sujeito em face da angústia e do real – ou seria do real da angústia?

ㅤ ㅤㅤQuer dizer, antes mesmo de poder construir anteparos simbólicos e imaginários, um contorno para um mundo de coisas que lhe capturam, o sujeito é marcado pelo encontro com o real. E diante dele, só pode armar uma débil defesa. É o que faz Justine, personagem do filme Melancolia, quando constrói uma “cabana mágica” para se defender do planeta que virá a se chocar com a Terra – o que bem pode ser tomado como metáfora para falar deste encontro inadiável com o inominável e, é preciso destacar de antemão, que implica numa morte.

ㅤ ㅤㅤO conceito de pulsão é este que, em sua dualidade, carrega o impasse sobre o que seria, afinal de contas, a morte em vida. Se Freud associa a vida ao sexual, certamente não o faz por acreditar numa harmonia entre as pulsões parciais e a pulsão sexual, pois o que as vicissitudes da pulsão retratam é um verdadeiro caos interno. Ele sustenta justamente o contrário, que algo do sexual não se presta à vida: o que do prazer sexual é tornado gozo, traduzirá Lacan em seu ensino.

ㅤ ㅤㅤCom a incidência do gozo no corpo, as zonas erógenas libidinizadas passam a ser regidas por um “se gozar” presente no prazer de ver, falar ou reter, por exemplo. Em outras palavras, há uma inibição das funções orgânicas. A entrada do gozo no circuito põe uma barra na história do infans e inaugura o sujeito dividido, um sujeito que não pode se identificar a este ser estranho que o habita – que lhe remete ao traumático do contato com o real -, e acaba optando pela via do ter [um corpo]. Solução, também, para o problema da angústia.

ㅤ ㅤㅤVoltamos às neuropsicoses de defesa. Para Miller, o corpo vivo é a condição de gozo3. Se falar do corpo vivo é falar do corpo não mortificado pelo significante, a morte que se narra é uma morte simbólica. Logo, para que o sujeito se fixe num modo de gozo, é preciso que um significante venha flagrar o corpo vivo.

ㅤ ㅤㅤTrata-se, aí, do real intruso, perante o qual o sujeito se defende com tudo o que tem; a saber, seu corpo. Miller chama-lo-á de corpo especular, este corpo que se unifica em prol do bem – a qual bem se refere, se ao da virtude ou ao que se possui, fica o ponto obscuro para o neurótico.

ㅤ ㅤㅤTal corpo especular tem todo o parentesco com a instância egoica, uma vez que se erige como barreira ao mal que representa o gozo, o responsável pela morte do corpo orgânico. É preciso que no orgânico algo morra para dar lugar ao gozo, já que o significante é a causa do gozo4.

ㅤ ㅤㅤEis o corpo como sintoma: ambos são efeitos da amarração produzida pelo sujeito diante do real. Um corpo é-feito. Isto aponta para o vivo do sintoma, na medida em que nele, vimos, há um real sempre à espreita. O inconsciente dá seu jeito de escapar. Talvez aí esteja o sentido da orientação dada por Lacan – a de retificar a relação do sujeito com o real. É imprescindível procurar pelo vivo, porque é com esse outro corpo, o corpo-gozo, que o sujeito se atrapalha, faz sintoma e por vezes se angustia. O sujeito precisa saber fazer com o resto. Afinal, é o real o real do corpo?

* Trabalho apresentado na II Jornada do Curso de Psicanálise da Orientação Lacaniana, na Escola Brasileira de Psicanálise – Seção Santa Catarina, em 09 de dezembro de 2017.

Notas

ˡ LACAN, J. (2009[1971]). “Introdução ao título deste Seminário”. In: Seminário, livro 18: de um discurso que não fosse semblante. Rio de Janeiro: Zahar, p. 9.

² LACAN, J. (1998[1958]). “A direção do tratamento e os princípios de seu poder”. In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, p. 604.

“Digo que é numa direção do tratamento que se ordena, como acabo de demonstrar, segundo um processo que vai da retificação das relações do sujeito com o real, ao desenvolvimento da transferência, e depois, à interpretação, que se situa o horizonte em que a Freud se revelaram as descobertas fundamentais que até hoje experimentamos, no tocante à dinâmica e à estrutura da neurose obsessiva.”

3 MILLER, J-A. (2004). “Biologia lacaniana e acontecimentos de corpo”. In: Opção Lacaniana – Revista Brasileira Internacional de Psicanálise. São Paulo: Eolia, nº 41, p. 8.

4 IDEM. IBIDEM, p. 53.

Referências bibliográficas

FREUD, S. (1976[1894]). “Las neuropsicosis de defensa (Ensayo de una teoría psicológica de la histeria adquirida, de muchas fobias y representaciones obsesivas, y de ciertas psicosis alucinatorias)”. In: Obras completas – Sigmund Freud, volume 3. Buenos Aires: Amorrortu editores S.A., p. 41-68.

FREUD, S. (1976[1894]). “Obsesiones y fobias. Su mecanismo psíquico y su etiología”. In: Obras completas – Sigmund Freud, volume 3. Buenos Aires: Amorrortu editores S.A., p. 69-84.

FREUD, S. (1976[1894]). “Sobre la justificación de separar de la neurastenia un determinado síndrome en calidad de neurosis de angustia”. In: Obras completas – Sigmund Freud, volume 3. Buenos Aires: Amorrortu editores S.A., p. 85-115.

LACAN, J. (2008[1959-1960]). O seminário, livro 7: a ética da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.

MILLER, J-A. (2004). “Biologia lacaniana e acontecimentos de corpo”. In: Opção Lacaniana – Revista Brasileira Internacional de Psicanálise. São Paulo: Eolia, nº 41, p. 7-67.

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