Reflexões êxtimas: “não confunda ética com éter”

Jornada EBP SC

 

Reflexões êxtimas: “não confunda ética com éter¹”

 

“Gostaria que vocês se dessem conta de que, se ele está constituído como tal, no estado de grupo autônomo, é para uma tarefa que não comporta nada menos para cada um de nós, do que o futuro – o sentido de tudo o que fazemos e teremos de fazer na continuação da nossa existência. Se vocês não vêm para colocar em causa toda a sua atividade, não vejo por que estão aqui. Os que não sentiriam o sentido desta tarefa, por que permaneceriam  ligados a nós, ao invés de se juntarem a uma forma qualquer de burocracia?”2

 

ㅤ ㅤㅤA escolha pela psicanálise é uma escolha por falar sobre aquilo que nos inquieta o corpo. O saber que extraímos desta experiência custa uma cifra alta: o preço é pago com nosso ser. Há que se sentir os efeitos na carne. É algo da ordem das onças.

ㅤ ㅤㅤSão dois excertos, respectivamente de Jacques-Alain Miller e Jacques Lacan, que demasiado me inquietam e convocam ao trabalho. Miller diz:

 

Na segunda metade dos anos sessenta, Lacan dirá que o discurso analítico toma a realidade de maneira unívoca […] Na medida em que a realidade ‘interna’ é não somente decisiva como única, goza-se mais dos fantasmas do que dos seres externos. Aqui, há uma debilidade de Freud, pois ele se interroga de modo apaixonado sobre a exatidão. Sua debilidade é flutuar entre a realidade externa e a realidade psíquica; este é seu sintoma.”3

         

ㅤ ㅤㅤLacan, por sua vez, é diretivo em A lógica da fantasia. “Ao fim e ao cabo, o Outro é, caso vocês ainda não tenham adivinhado, o corpo”4. Estas perspectivas, considero, são de um rigor conceitual que beira, ou mesmo transborda, o debate da ética da psicanálise.

ㅤ ㅤㅤPretendo aqui, partindo de um cotejamento com o primeiro ensino de Lacan, tangenciar o nível da discussão que se abre através de referidas precisões, na medida em que põem em questão o corpo e o Outro a ponto de engendrarem um paradoxo que só é possível de operar com o recurso da topologia. Entre os eixos do real do corpo e do Ⱥ, virada lacaniana, há um ponto não-localizável, evanescente, no plano cartesiano: eis o êxtimo. Fora da lógica do contabilizável, é simétrico à posição feminina, não-toda.

ㅤ ㅤㅤTomemos o sintoma, em sua vertente de significação que vem do Outro, como índice de uma amarração possibilitada pelo consentimento do sujeito com a alteridade, com o suposto saber. A busca por procedimentos cirúrgicos com finalidade estética cresce exponencialmente, a onda da alimentação e do corpo hipersaudáveis vem se tornando um rentável nicho de mercado, a angústia nunca foi tão remediada. Miller dirá que esta conjuntura é a expressão de um “esforço de ‘retificação subjetiva de massa’, destinada a harmonizar o homem com o mundo contemporâneo; a combater e a reduzir o que Freud nomeou, de maneira inesquecível, como ‘mal estar na civilização’”5.

ㅤ ㅤㅤA clínica freudiana da interpretação do sintoma pela via do sentido já não alcança a subjetividade de nossa época. O sujeito não se endereça ao corpo como antes. Há, aí, qualquer triangulação entre corpo, sintoma e simbólico a ser investigada. A amarração, cujo nó é o Nome-do-Pai, parece estar frouxa. O corpo se mostra, mais do que nunca, em sua vertente real, quase nu de simbolização.

ㅤ ㅤㅤNão a toa, em 1938, com a publicação de Complexos familiares na formação do indivíduo, Lacan começa a esculpir um corpo – inicialmente no âmbito do registro imaginário – tomando como referencial a clínica da psicose. Da problemática da libido ao caso Schreber e o narcisismo, um salto teórico leva a demonstrar que ter um corpo requer um trabalho de unificação da imagem no espelho que não é sem o atravessamento da linguagem na carne. O corpo não é um a priori – é um produto transformado pelo discurso.

ㅤ ㅤㅤExiste uma materialidade na fala, algo que permite acontecer um corpo pelos vértices do discurso. Pois “é o próprio significante que é objeto da comunicação”6, vem dizer Lacan. A língua é capaz de guardar os segredos mais íntimos da relação entre o sujeito e seu ser. A proximidade semântica de “dizer”, do latim dicere, com “ensinar”, docere, vem apontar na fala a dimensão da transmissão do desejo. Em suma, falar é ensinar sobre o desejo.

ㅤ ㅤㅤFalar produz, no tempo dialético, uma significantização do corpo e uma corporização do significante. No entanto, é próprio da dialética o tempo da síntese. Vemos, então, que o ato de falar comporta em si um real: pôr em palavras é ter de se haver com o que elas não alcançam, com o desejo que não cabe todo nas palavras. Há um resto não significantizado pelo falo.  

ㅤ ㅤㅤEm Instância da Letra, Lacan denota a divisão subjetiva causada quando o desejo entra em cena. Ele sublinha a neurose como “uma questão que o ser coloca para o sujeito ‘lá onde ele estava antes que o sujeito viesse ao mundo’”7. Tal como se enuncia um problema com uma caneta, é o sujeito que vem revelar a pergunta inerente ao ser.

ㅤ ㅤㅤNa entrada do sujeito e de seu corpo na linguagem, há uma intrusão significante e uma extrusão de gozo. Neste momento, que é também do descentramento do sujeito com relação ao ser, surge o Outro como resultado da operação de divisão. Diante da impotência do Nome-do-Pai em reabsorver todo o gozo sob seu signo8, o Outro vem alojar o que resta do gozo do qual o sujeito aí se separa. Trata-se do resto enquanto objeto a.

ㅤ ㅤㅤSe por um lado o Outro é função do universal, por outro, contém a –  “o mais íntimo que está no exterior, que é como um corpo estranho”9. O que está em jogo no campo do Outro diz respeito a uma dialética intersubjetiva que é, em verdade, uma construção fantasmática. Em outras palavras, o fantasma dá consistência ao Outro. Aqui, não nos enganemos: estamos no campo da ética.

ㅤ ㅤㅤLaurent diz que “todo conjunto humano comporta em seu cerne um gozo desgarrado, um não saber fundamental sobre o gozo que corresponderia a uma identificação”10. O impasse é sempre com aquele que encarna o gozo rejeitado. O racismo, a misoginia, a xenofobia, a homofobia, o antissemitismo e outras modalidades de discurso de ódio são sempre direcionadas ao outro imbuído de um estatuto de insuportabilidade.

ㅤ ㅤㅤAfinal de contas, com quem os odiadores estão falando? Proponho, em conformidade com Miller, pensar no Outro como parceria-sintomática. Segundo ele, a fala sempre implica uma estratégia que envolve o Outro, uma vez que o parceiro do sujeito, que sempre existe, é esse Outro11.

ㅤ ㅤㅤE a vida cotidiana está repleta dessas confusões. Quando, imersos que estamos em nosso monólogo, caímos na armadilha da entificação do Outro, numa tentativa de fazer existir a relação sexual. Neste sentido, a topologia proposta por Lacan tem efeito de retificação subjetiva. O descobrimento do inconsciente exige uma topologia que permita situar, de acordo com os dados da experiência, o que flutua com os nomes interior e exterior, afirma Miller12*.

ㅤ ㅤㅤ“A ética da psicanálise – assevera Laurent -, é a de uma ‘sociedade do sintoma’”13. Eis o embaraço: endereçar-se a outro sujeito do outro lado do muro da linguagem, e não a um eu. A psicanálise, portanto, não é uma sociologia. O que a psicanálise tem a dizer sobre o laço social, diz pela boca de cada psicanalista. O psicanalista sendo aquele que, em relação a ele próprio e à psicanálise, ocupa uma posição de extimidade. Só assim não se confunde ética com éter. Uma ética que é apenas saber sem corpo e sem desejo, é etérea. Que a verdade seja dita: não sabe nada sobre a vida. Aí, corre-se o risco de fazer da ética uma oração sem sujeito.

 

Trabalho apresentado na XII Jornada da EBP Seção Santa Catarina: as pirações de cada um, em 21 de outubro de 2017.

ˡ Trecho da música “Natália”, interpretada pela Legião Urbana. Composição por Dado Villa-Lobos, Marcelo Bonfá e Renato Russo.

² LACAN, J. (1986[1953-1954]).  “Introdução aos comentários sobre os escritos técnicos de Freud”. In: O seminário, livro 1: os escritos técnicos de Freud. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, p. 16.

³ MILLER, J-A. (2011). “Seminário sobre os caminhos da formação dos sintomas”. In: Opção Lacaniana – Revista Brasileira Internacional de Psicanálise. São Paulo: Eolia, nº 60, p. 31.

IDEM. (2010). “A lógica da fantasia (trechos)”. In: Opção Lacaniana – Revista Brasileira Internacional de Psicanálise. São Paulo: Eolia, nº 58, p. 21.

IDEM. (2013). “Falar com seu corpo”. In: Opção Lacaniana – Revista Brasileira Internacional de Psicanálise. São Paulo: Eolia, nº 66, p. 13.

6 LACAN, J. (1998[1966]).  “De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose”. In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, p. 538.

7 IDEM. (1998[1966]).  “A instância da letra no inconsciente ou a razão desde Freud”. In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, p. 524.

8 MILLER, J-A. (2013). “O Outro sem o Outro”. In: Opção Lacaniana – Revista Brasileira Internacional de Psicanálise. São Paulo: Eolia, nº 67, p. 28.

9 IDEM. (2010). Extimidad. Buenos Aires: Paidós, p. 14.

10 LAURENT, E. (2013). “O racismo 2.0”. In: Opção Lacaniana – Revista Brasileira Internacional de Psicanálise. São Paulo: Eolia, nº 67, p. 34.

11 MILLER, J-A. (2012). “O monólogo da aparola”. In: Opção Lacaniana Online, nova série, ano 3, p. 7. Disponível em: < http://www.opcaolacaniana.com.br/pdf/numero_9/O_monologo_da_aparola.pdf >. Recuperado em 10/06/2017.

12 IDEM. (2010). Extimidad. Buenos Aires: Paidós, p. 18.

*“El descubrimiento del inconsciente exige una topología que permita situar, de acuerdo con los datos de la experiencia, lo que fluctúa con los nombres interior y exterior.”

13 LAURENT, E. (2007). “A sociedade do sintoma”. In: A sociedade do sintoma: a psicanálise, hoje. Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria, p. 177.

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