O que é Histeria?

ㅤ ㅤㅤÉ comum que ouçamos no cotidiano frases como “Esta mulher é uma histérica” ou “Fulana está uma histérica hoje”. Assim como o jargão Freud Explica, uma certa visão sedimentada sobre a histeria é herança da popularização da psicanálise na cultura.

ㅤ ㅤㅤAinda que falas como essas possam de fato apontar e reconhecer manifestações de histeria, talvez elas incorram em alguns equívocos. Fazemos parte da cultura, compartilhamos todo um universo simbólico que nos permite compreender e dialogar com o outro. Quer dizer, o que dizemos tem um fundo de verdade, mas nunca diz tudo e pode estar envolto em um tanto de preconceito. Pensemos um pouco mais no que isso nos diz.

ㅤ ㅤㅤHisteria é uma palavra que vem do grego hystéra, que significa útero. Desse significado que dá origem ao nome já podemos perceber que a histeria é historicamente uma condição clínica associada às mulheres. Pensava-se que seus sintomas tinham uma causa orgânica que era relacionada ao útero. Mas como eram esses sintomas?

ㅤ ㅤㅤNo século XIX, a produção sobre o assunto foi extensa. O fenômeno da histeria chamou a atenção principalmente da área médica na época: paralisias, cegueiras, enxaquecas, epilepsia, entre outras perturbações compunham o quadro clínico. As crises de histeria impressionavam os espectadores por serem muitas delas escandalosas e teatrais – era a chamada pantomima histérica. Parecia mesmo um apelo para o olhar dos outros.

ㅤ ㅤㅤComo os sintomas da histeria eram corporais, as pessoas dirigiam-se a médicos para procurar ajuda. Nesse meio circulavam figuras importantes como Charcot, Breuer e Freud, que passaram a estudar a afecção mais a fundo. Em 1895, Freud publica Estudos sobre a histeria com coautoria de Breuer. Começa a surgir uma perspectiva que irá mudar o tratamento das pacientes histéricas. Qual foi a inovação que Freud introduziu?

ㅤ ㅤㅤAntes dele, os médicos consideravam as queixas dessas pacientes infundadas. Não havia, segundo eles, causa orgânica para o desenvolvimento da doença que se apresentava. Mas onde a medicina clássica via uma mentira, um fingimento, Freud viu uma pista. Ele foi capturado por esse apelo dirigido ao outro das histéricas. 

ㅤ ㅤㅤCostuma-se dizer que as histéricas ensinaram a psicanálise a Freud. Foi escutando o que tinham a dizer que ele pôde descobrir que seus sintomas não eram meros fingimentos, mas tinham um significado. Quando se deparou com o fato de que estes sintomas queriam dizer algo que não podia ser dito com todas as palavras, Freud descobriu a etiologia das neuroses e também que o corpo fala. Em outras palavras, o que estava em jogo aí era a realidade psíquica. Podemos adoecer “da cabeça” por conta da maneira com a qual estruturamos nossa personalidade, nosso modo de estar no mundo.

ㅤ ㅤㅤAlgo de singular se pronunciava por meio dos corpos das mulheres histéricas daquela época. Seus sintomas evidenciavam que elas não tinham controle sobre o que acontecia com seu corpo, como se ali se expressasse um conteúdo desconhecido. Mas Freud não tinha medo do desconhecido, desejava conhecê-lo e as forças que o impulsionavam.

ㅤ ㅤㅤAs histéricas falavam (e ainda falam!) de uma divisão subjetiva. Perguntavam-se sobre o porquê de sua condição, pois não sabiam explicar o que lhes acontecia ou o motivo de terem determinados comportamentos.  

ㅤ ㅤㅤÉ importante compreender que a histeria, enquanto neurose, é causada por um conflito entre o eu e o inconsciente. Quer dizer, nosso eu não permite a expressão dos conteúdos inconscientes, mas eles existem. Isto significa que nós somos em essência divididos: uma parte de nós é conhecida, a outra é ignorada.

ㅤ ㅤㅤNa histeria em particular, há a possibilidade de um contato maior com o inconsciente. Seus dizeres escapam sorrateiramente. A histeria de conversão, aquela com a qual Freud inicialmente se deparou, mostra como esses dizeres inconscientes tentam se expressar, convertendo sua mensagem censurada em um sinal que não cessa de apitar no corpo.

ㅤ ㅤㅤEntão se trata de decodificar esse dizer sinalizado no corpo. Foi assim que Freud descobriu que uma terapia pela fala era um tratamento eficiente. Digamos que falando, deixamos espaço para nosso inconsciente falar junto. Isto porque ao falar, dizemos mais do que acreditamos estar dizendo. É no nível da equivocação que o inconsciente aparece. Algo em nós não pensa ao falarmos.

ㅤ ㅤㅤDando a palavra às suas pacientes, os sintomas aliviavam e elas podiam produzir um saber sobre o que estava escondido por trás de seu sofrimento. O estudo da histeria tornou-se o pilar da construção de um campo de saber distinto, a dizer, a psicanálise. Entre outras coisas, por sustentar uma visão diferente da mulher e da feminilidade. A psicanálise deu voz às mulheres e à sexualidade feminina.

ㅤ ㅤㅤO saber médico – uma visão biomédica das mulheres e da histeria – incidia no corpo das histéricas na forma de procedimentos invasivos e violentos, por exemplo camisas de força, altas dosagens de medicamentos e eletrochoque. Estes tratamentos visavam domar um ilimitado de gozo¹ que estas pacientes experimentavam em seu corpo. Era tudo para poder dopá-lo e mantê-lo controlado. O problema é que o corpo não se calava nunca e a medicina não dava conta disso. A obra Arch of Hysteria da artista plástica Louise Bourgeois ilustra bem essa questão.

Arch of Hysteria - Louise Bourgeois
A escultura demonstra como o corpo se contorcia durante as crises. Por muito tempo, associou-se manifestações desse tipo à possessão demoníaca, por exemplo.

ㅤ ㅤㅤDiferentemente da medicina, a psicanálise não se preocupava apenas em “consertar” este corpo deformado, mas em fazer com que o sujeito compreendesse as motivações para aquilo que estava acontecendo – é bom lembrar que nisso está incluído o fator inconsciente. O método curativo de psicoterapia proposto pela psicanálise passa por permitir ao afeto estrangulado o escoamento pela fala – são palavras de Freud.

ㅤ ㅤㅤE foi surpreendente para ele perceber como o próprio corpo aos poucos se desestrangulava, desenrijecia quando se oferecia uma escuta para o sofrimento dessas pacientes histéricas. Em vez de prescrições, uma escuta diferente: de um profissional que não pressupunha saber mais do que o paciente sobre sua condição e que deixava em segundo plano os manuais – que muito impedem de ouvir o que realmente importa.

ㅤ ㅤㅤAgora, um pouco sobre o que se escutava na clínica:

ㅤ ㅤㅤQuando começavam a falar de seu sofrimento, essas pacientes resgatavam lembranças traumáticas de sua vida. Freud passou a observar que tais lembranças haviam se transformado, nos casos de histeria, em uma espécie de núcleo patógeno, de modo que os afetos delas se conservavam e podiam se ligar a outras vivências posteriormente.

ㅤ ㅤㅤOs traumas funcionavam como acontecimentos motivadores que continuavam a atuar no psiquismo, mais ou menos como uma dor psíquica relembrada que ainda provoca lágrimas. Assim, as lembranças antigas eram revivificadas na atualidade.

“O histérico sofre sobretudo de reminiscências” (FREUD, 2016, p. 25)

ㅤ ㅤㅤImagine um acontecimento intenso na vida de alguém – pode ser a perda de um ente querido ou uma situação de violência. Episódios como esses podem deixar fortes impressões em quem os vivencia. As recordações não param de voltar. Algumas delas sentimos com a mesma força do momento em que o fato aconteceu. Sabemos o quanto é penoso não conseguir esquecer de algo que preferiríamos deletar da nossa memória. É dessa maneira que vivências traumatizantes passam a interferir na nossa vida.

ㅤ ㅤㅤQuando viram sintomas dolorosos ou desembocam na angústia, tudo indica que é necessário tirar a força investida nessas lembranças. Se entre as tarefas da análise encontra-se a eliminação de um sintoma, diz Freud, este passa a participar da conversa. Participando da conversa, o sintoma passa a mostrar o que lhe dá sustentação. 

ㅤ ㅤㅤNo caso da histeria, o sintoma é endereçado ao outro. Então podemos entender que não foi à toa que o pontapé inicial da psicanálise se deu pela clínica da histeria. As histéricas requisitavam o olhar e demandavam um saber do outro, um saber que as curasse de seu mal. No cerne de sua questão residia uma demanda de amor, mesmo de cura pelo amor. 

ㅤ ㅤㅤÉ certo que os sintomas da histeria se modificaram. Eles se mimetizam de acordo com as mudanças na sociedade e na subjetividade. Por exemplo, as histéricas atendidas por Freud apresentavam uma sintomatologia relacionada à forte repressão sexual da época. Sabemos que as coisas estão um tanto diferentes hoje em dia.

ㅤ ㅤㅤAtualmente, os sintomas conversivos de outrora aparecem com raridade cada vez maior. Por esta razão, especialmente a demanda de amor configura-se como essencial para reconhecer a histeria, o que nos permite saber, inclusive, que a histeria não é uma exclusividade das mulheres: homens também podem ser histéricos, já que o que conta é a maneira como se demanda o amor do outro. 

ㅤ ㅤㅤA clínica psicanalítica é testemunha ocular da centralidade que tem o amor, a parceria amorosa para a mulher. Especificamente na histeria, a mulher se dirige ao parceiro pelo imperativo de que ele a ame incondicionalmente e diga sobre seu ser (Slongo, 2012, p. 2). 

ㅤ ㅤㅤEla busca ser desejada e amada não só com paixão, mas com exclusividade. Quer ser a única. “Me ame mais, mais, mais ainda”. Consequentemente, suas queixas giram em torno da impossibilidade de ser amada com toda essa voracidade que pede e de um outro que é incapaz de lhe satisfazer.

ㅤ ㅤㅤA questão fundamental da histérica é uma pergunta acerca da identidade feminina: “O que é ser mulher?”. Ela ainda pode ser traduzida em “Quem sou eu entre todas estas mulheres?”. O enigma da feminilidade permanece aí: cada mulher deve criar sua maneira de ser mulher. Trata-se de inventar seu lugar – e uma psicanálise caminha nesse horizonte. O feminino é invenção.

¹ Gozo, em francês jouissance, é um conceito psicanalítico que fala de um ganho secundário com a doença. Algo como a obtenção de prazer pelo desprazer. 

FREUD, Sigmund. [1893-1895] Estudos sobre a histeria. Tradução: Laura Barreto. São Paulo: Companhia das Letras, 2016. 

SLONGO, Cleudes Maria. Amor atravessado pela pulsão de morte. In: Opção lacaniana online nova série, ano 3, n. 8, 2012.

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