Cinema grego e o estranho contemporâneo

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ㅤ ㅤㅤKynodontas. Alpeis. Attenberg. L. Miss Violence. A estranha onda grega, como denominam os críticos as produções cinematográficas peculiares de diretores como Yorgos Lanthimos, talvez tenha muito a nos dizer.

ㅤ ㅤㅤJá em 2011, com Kynodontas, Lanthimos concorreu ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Com The Lobster (2015), seu primeiro filme rodado em inglês, ele concorreu à estatueta de Melhor Roteiro Original. Tudo indica que o gênero anda chamando atenção da indústria e dos cinéfilos.

ㅤ ㅤㅤAs hipóteses para o despontar do cinema grego são variadas. Alguns dizem que momentos de crise econômica severa como a que vive a Grécia incitam a criação artística – a arte como expressão é uma via conhecida de sublimação do mal-estar. Outros apontam uma combinação bem-sucedida de baixo orçamento e ousadia, o oposto da estética hollywoodiana

ㅤ ㅤㅤDe todo modo, aí o conceito de crise parece ser significativo. As telas da televisão, do computador e do smartphone anunciam endoidecidas que o mundo vive tempos críticos, conturbados. Noticiam que com a fragilização e queda do nome do pai – quando o discurso ordenador do mestre perde credibilidade na cultura -, amor, trabalho e laço social se abalam. 

ㅤ ㅤㅤUma crise na cultura é também uma crise da subjetividade. Não foi sem antes recolher na clínica relatos que apontavam para uma grande desorientação do sujeito na cultura que o próprio Freud descobriu que “o eu não é senhor em sua própria casa”. Essa afirmação pode ser tomada como sintoma de um novo tempo e de uma nova subjetividade emergindo.

ㅤ ㅤㅤA metáfora da liquidez de Zygmunt Bauman cabe muito bem. Com o afrouxamento das estruturas no social, o homem ficou desbussolado. E é esta ruptura subjetiva mesma que o cinema grego faz retratar com genialidade: lá o absurdo tem cara de absurdo – o que não é pouca coisa em tempos tão loucos. Mas afinal, o que é isso que ganha status de estranho?

Não é por acaso, então, que, nestes tempos de desamparo generalizado, vejamos se espalhar, por toda parte, os efeitos dessa nova racionalidade do mercado globalizado, efeitos que chamamos de patologias da solidão. Nas suas mais variadas formas, essas patologias consistem em os sujeitos se consumirem gozando sozinhos e tornando, também, o outro um objeto a ser consumido. (REYMUNDO, 2008)

ㅤ ㅤㅤNos dias de hoje, a palavra de ordem é remediar toda e qualquer angústia: famílias contratam um serviço de atores que representam seus entes mortos. Maquiar a falta de sentido: literalmente motorista, um homem mora em seu carro. Fazer do amor uma comédia asséptica: um programa de formação de casais promete unir almas gêmeas em 40 dias. O cinema grego contemporâneo é uma verdadeira experiência antropológica no que há de mais familiar. 

REYMUNDO, Oscar. Por que, ainda, a psicanálise?. In: Arteira – Revista de psicanálise. Florianópolis: EBP-SC, n.1, p. 11-22, 2008.

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