Nuances de pulsão e fantasia no sintoma neurótico

ㅤ ㅤㅤAo longo de seu ensino, Sigmund Freud empreendeu uma verdadeira pesquisa sexual. O termo sexualforschung faz alusão às curiosas – e familiares – teorias sexuais infantis, mas para além disso, podemos tomá-lo como rastro do que esteve em marcha na obra de Freud: um retorno à sexualidade infantil.

ㅤ ㅤㅤVisto que a psicanálise se fundamenta no inconsciente topológico e na etiologia sexual das psicopatologias, de que maneira o conteúdo que lhe é próprio se manifesta? A aposta freudiana é a de que o sintoma é uma dessas manifestações da vida inconsciente que, por guardar relação com as primeiras vivências do doente, possui um sentido, é interpretável.

ㅤ ㅤㅤNa clínica, um sintoma insuportável é a queixa inicial que leva um sujeito a procurar tratamento e a questão que o coloca a trabalho numa análise. Pode implicar em grande sofrimento ou mal estar e se apresenta como sinal de que os arranjos feitos pelo sujeito em sua vida não estão funcionando satisfatoriamente.

ㅤ ㅤㅤRetomemos a pergunta antes feita, pois ela pode ser reformulada de maneira que traduza com mais clareza o teor da incredulidade existente à época – ainda que com isso não queira afirmar que hoje estamos menos iludidos com lógicas cartesianas do que outrora. Engrossado por um positivismo científico, o coro questionava: “Como provar a existência de algo que é invisível, intangível?”. Este é o problema da “anatomia” da psicanálise, que não é orgânica, mas está entre soma e psique.

ㅤ ㅤㅤAí parece figurar o valor que fala e palavra têm para a psicanálise. Se a causa inconsciente e sexual dos sintomas não é demonstrável aos olhos, isso não quer dizer que ela não se pronuncie. O bom ouvidor captura esta pronúncia no que verte do corpo e do psiquismo. Freud sacou a metáfora! No corpo, assim como no sintoma, há falas. Há um enlaçamento das formações do inconsciente com a palavra.

ㅤ ㅤㅤParafraseando Freud, o conflito neurótico gira em torno de uma nova maneira de satisfação da libido. Por meio da formação de compromisso duas forças divergentes voltam a se encontrar no sintoma. Resta agora investigar quais são os sustentáculos desta formação de compromisso da qual o sintoma é representação.

Um parafuso a menos

ㅤ ㅤㅤCom a proposição da metapsicologia, introduz-se a pergunta de qual montante de libido uma pessoa é capaz de conservar em suspenso e que fração desta é capaz de desviar do sexual para as metas sublimatórias. Um novo fator, o econômico, evidencia o tensionamento entre verdrängung e triebe.

ㅤ ㅤㅤEm Os Instintos e seus destinos a pulsão é definida como “representante psíquica dos estímulos oriundos do interior do corpo e que atingem a alma”. Isto porque a ligação entre corpóreo e psíquico implica num trabalho constante imposto à psique, do qual é testemunha a vida pulsional.

ㅤ ㅤㅤHá na neurose um jogo de forças que corresponde ao conflito entre o Eu e o inconsciente. À pulsão é vedada a satisfação completa. De um lado, a pulsão luta pelo seu quinhão de satisfação e, do outro, o Eu luta para conservar seus ideais. Com isso, a raiz das afecções neuróticas aponta para conflitos entre as exigências da sexualidade e do Eu.

ㅤ ㅤㅤUm destino possível para a pulsão é a repressão. Produzem-se resistências no interior do aparelho psíquico com a finalidade de tornar inoperantes as moções pulsionais e evitar o desprazer. A repressão age interditando o acesso do representante psíquico à consciência. O sintoma, disfarce que é, avaliza o imperativo pulsional por uma via substitutiva de satisfação.

ㅤ ㅤㅤContudo, a repressão como mecanismo de defesa não existe desde o princípio. “Não pode surgir antes que se produza uma nítida separação entre atividade psíquica consciente e inconsciente”, afirma Freud. Diante da força constante da pulsão e de sua irredutibilidade por meio de ações motoras é necessária uma ação de outro tipo. Uma nova ação psíquica fundadora do Eu, esta instância submetida a três senhores: o mundo exterior, a libido e o rigor do supereu.

ㅤ ㅤㅤÉ a psique se havendo com sua relação impreterível com o corpo na medida em que constitui um Eu corporal. Conforme Freud em O Eu e o Id, “não é apenas uma identidade superficial, mas ele mesmo a projeção de uma superfície”. Com isso, a pulsão se satisfaz parcialmente regredindo a estágios anteriores da organização da libido. Pensemos, então, no quanto o próprio Eu é um sintoma do sujeito neurótico.

Outra cena

ㅤ ㅤㅤA fantasia de sedução na infância foi conteúdo largamente recolhido por Freud na fala de seus pacientes. Causava-lhe espanto a quantidade de relatos de abuso sexual e outras violências, o que fez deste fenômeno objeto de estudo com considerável relevância para posteriores elaborações teóricas.

ㅤ ㅤㅤNo Batem numa Criança, Freud volta a falar da atividade fantasiosa dando privilégio a seu estatuto de realidade psíquica. Conclui que no mundo das neuroses ela é decisiva. O par sadismo-masoquismo e as três oposições do amar são resgatados na descrição das fantasias de surra.

ㅤ ㅤㅤNuma primeira fase da fantasia, a sádica, expressa-se “o outro ama somente a mim, porque bate na outra criança”. A segunda, masoquista, sugere uma inversão: “o outro não me ama, pois bate em mim”. No terceiro tempo, a forma da atividade fantasiosa é sádica, porém a satisfação obtida é masoquista e exprime “o outro está batendo na outra criança, ele ama somente a mim”.

ㅤ ㅤㅤÉ quando Freud dá de cara com um problema. Ele constata que as fantasias – estas fórmulas, formulações – permanecem fora do conteúdo da neurose e não ocupam lugar certo em sua trama, o que assinala uma oposição entre sintoma e fantasia.

ㅤ ㅤㅤAcerca do entrave, Miller observa que a fantasia não tem o mesmo tipo de tempo retroativo característico do sintoma. A fantasia é um instante com status de axioma do sujeito. A significação de que se fala na cena de Batem numa criança diz do ponto de partida do sujeito onde se destaca algo da sexualidade. Não há uma retroação, como na formação do sintoma, porque a fantasia sempre está.

ㅤ ㅤㅤAgora devemos nos questionar: por que o sujeito está tão fixado ao seu sintoma? É essencial a distinção que faz Miller: sintoma e fantasia são duas dimensões clínicas. A via da interpretação pode curar o sujeito de um sintoma, mas nem tudo neste se pode interpretar – parece que é o impenetrável que Freud nomeia ao falar que a fantasia não se encaixa na trama neurótica.

ㅤ ㅤㅤTal indicação freudiana é consoante a de Miller: “a fantasia pode ser situada como resíduo da interpretação do sintoma”. Quer dizer que no sintoma há um não-sentido, algo de não interpretável quando se toca na fantasia. Neste nível, o sujeito é incurável de alguma coisa.

ㅤ ㅤㅤEm outras palavras, a capacidade de satisfação substitutiva no sintoma faz com que o neurótico beneficie-se de sua doença, ainda que pagando o preço do sofrimento. E na medida em que o sintoma reveste a fantasia, ele também comporta uma dose de prazer – a fantasia é um refúgio das exigências da realidade.

ㅤ ㅤㅤO sujeito não quer se livrar de seu sintoma porque nele encontra satisfação. No sintoma há um para além do princípio do prazer. É aí que Lacan encontra a pedra angular de seu ensino. O estado neurótico comum é aquele em que o sujeito goza do seu sintoma.

* Trabalho apresentado na I Jornada do Curso de Psicanálise da Orientação Lacaniana, na Escola Brasileira de Psicanálise – Seção Santa Catarina, em 10 de dezembro de 2016.

FREUD, Sigmund. [1915] A repressão. In: Introdução ao narcisismo, ensaios de metapsicologia e outros textos. Tradução: Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

FREUD, Sigmund. [1923] O eu e o id. In: O eu e o id, “autobiografia” e outros textos. Tradução: Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

FREUD, Sigmund. [1917] Os caminhos da formação de sintomas. In: Conferências introdutórias à psicanálise. Tradução: Sergio Tellaroli. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.

FREUD, Sigmund. [1915] Os instintos e seus destinos. In: Introdução ao narcisismo, ensaios de metapsicologia e outros textos. Tradução: Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

MILLER, Jacques-Alain. Duas dimensões clínicas: sintoma e fantasia. In: Percurso de Lacan – Uma introdução. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988.

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